quarta-feira, 4 de agosto de 2010

"Nós e os outros"

O conceito de cultura ganhou extrema importância na segunda metade do século XIX e em todo século XX. O termo cultura serviu como recurso para se pensar a diferença entre povos civilizados e primitivos, desencadeando assim a diferença entre "nós" e os "outros". Tal interpretação trouxe, em alguns aspectos, uma visão nociva a respeito do homem e dos diferentes modos de desenvolvimento da vida social.
Se antes todos os seres humanos eram pensados dentro da condição de "filhos de Deus", essa visão ganhou novas interpretações. Antes pensava-se que os povos primitivos estavam no fim de um longo processo em direção a termos postos pelos antropólogos para explicar o caminho pelo qual a humanidade teria passado. Deste modo, palavras como origem, evolução e cultura, serviam como guia para se compreender a condição do homem.
Para os evolucionistas, os povos primitivos não estariam na degenerescência, mas sim, no inicio do processo de evolução. Logo, termos como evolução cultural e evolução biológica andariam lado a lado.
Somente no fim do século XIX e inicio do século XX, o discurso antropológico moderno, fez o deslocamento do uso singular para o plural. Isso porque os evolucionistas usavam a palavra cultura no singular, não pensando pois em culturas. Entendiam a cultura como universalista, como disfarce que oculta a própria identidade e, é por razão, que eles podem ser considerados etnocêntricos. Assim, não há respeito pela singularidade gerando como consequência fantasias a respeito de uma natureza humana uniforme.
A questão do "pertencimento" precisava ser pensada e isto os relativistas fizeram muito. Esse sentimento de pertencer é característica do caráter civilizador a ponto de ser aquilo que gera o orgulho e o reconhecimento.
A idéia de cultura não pode ser pensada a priori pois não se deve buscar um conceito único de cultura. O que há de fato, é uma identidade ancorada numa determinada realidade social, nem melhor, nem pior, mas contextualizada em seu próprio ancoradouro.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Tudo passa. Não há como se explicar a morte.

Desde o início da civilização é possível relacionar o surgimento das angústias metafísicas do homem com as manifestações de cultos aos mortos. Assim a morte começa a ser entendida como fronteira, como limiar de outra realidade. Talvez o sentimento avassalador das perdas de pessoas que amamos e também a iminência da nossa própria morte, estimule em nós a crença na imortalidade.
Viver e morrer são a descoberta da finitude humana e da sua temporalidade. Por mais doído que seja, é no morrer que completamos aquilo que somos e o que fomos. Para alguns filósofos, só é possível afirmar se alguém foi feliz ou infeliz quando terminam as vicissitudes da vida. Para Sêneca "quem não souber morrer bem terá vivido mal ".
O dilaceramento interno provocado pelas perdas é fruto do medo diante das rupturas e inseguranças que o novo momento representa. Nunca foi tão perturbador falar a respeito deste tema como é agora. Há no homem contemporâneo uma espécie de recusa da própria finitude e aí podemos refletir se isto significa uma fuga diante do inexorável. Em Heidegger a morte é considerada algo que dá sentido à vida, já em Sartre ela é a dimensão do absurdo.
É de Montaigne a reflexão a seguir: "Qualquer que seja a duração de nossa vida, ela é completa. Sua utilidade não reside na quantidade de duração e sim no emprego que lhes dais. Há quem viveu muito e não viveu ".

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Tempo, Destino e Liberdade Finita

Fazemos a experiência do tempo quando contamos com ele, quando consultamos o relógio, quando nos arrependemos com o tempo perdido, quando aguardamos uma data ou evento e também em muitas outras circunstâncias tristes e alegres.
A espera é um porvir até que se torne verdadeiramente presente. Faz parte da gênese da existência este contra-movimento e dentro deste contexto, a finitude e o tempo se expressam como possibilidade, mas que conserva um laço com algo que se furta e se desvia. Parece que o tempo rejeita a si próprio na medida em que se apresenta em sua finitude. Neste caso, a primazia do porvir, como tempo futuro, pode servir de consolo para o tempo presente; não esquecendo aqui de considerar o tempo como passagem.
Se é verdade que há um tempo para tudo, o que isso quer dizer? É preciso antes de tudo lembrarmos que não há tempo natural, visto que esta questão também é fruto da convenção humana na tentativa de tornar mais fácil a convivência entre os homens.
O tempo é em sua essência finito e aberto. Finito porque é mensurável, daí a nostalgia que sentimos daquilo que já passou e aberto por nos gerar imagens de um horizonte que se abre através de nossos sonhos e principalmente porque é um constante porvir.
" Derivar a historicidade da temporalidade é mostrar que a temporalidade abriga algo como um destino, que é o nome da liberdade finita." ( Martin Heidegger)

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Você não é, está sendo

Nós, seres humanos, fazemos parte de uma espécie que até o momento, revela-se muito bem sucedida em termos de sobrevivência biológica. Somos possivelmente os únicos seres vivos que povoam todas as regiões da terra, desde as mais quentes até as mais frias.
Curiosamente, é este mesmo homem que chega ao mundo como a mais impotente de todas as criaturas. É um ser inacabado e portanto vulnerável. Porém, este mesmo ser já chega ao mundo com um sistema nervoso digno de admiração e que mais tarde irá desenvolver-se graças a combinação do inacabado com a infinita maleabilidade humana que o faz amoldável. Na prática, isto implica a existência de infinitas possibilidades acessíveis ao humano.
A partir da compreensão que o homem é inacabado, podemos então refletir sobre as várias maneiras de agir. Para Epicuro "há ocasiões em que utilizamos um bem como se fosse um mal e, ao contrário, um mal como se fosse um bem."
Sendo um ser inacabado, somos obrigados a fazer escolhas e estas implicam uma concepção de certo e de errado. Mas como já dizia o sábio Sócrates: "o homem só pratica o mal quando ignora o bem." O importante é entender que sendo um animal social, que só se realiza dentro de um contexto de co-liberdade, a questão com a qual devemos nos preocupar não é pois uma simples distinção teórica entre bem e mal. É sim a construção de nossas histórias individuais a partir de um contexto onde o outro também tem que ser pensado pois mesmo condenado a ser livre, o homem é o responsável por tudo que faz, embora não tenha criado a si mesmo.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

O que podemos tirar das lições de Prometeu, Orfeu e Narciso

O homem age impulsionado por necessidades de sobrevivência, para satisfazer apetites e desejos, pela necessidade de crescer ou até pelo anseio de sobrepujar-se aos outros. Para Hegel, o homem é um desejo. Para Marx, é uma necessidade, ou melhor, é um sujeito portador de necessidades.
Onde estaria então a origem da infelicidade do homem moderno? O acúmulo de erros através dos tempos nos mostra as contradições de um prazer que em si mesmo é pecaminoso; isto não no sentido religioso, mas sobretudo no que diz respeito ao remorso que este é capaz de gerar na personalidade humana. É óbvio que neste tema podemos sim nos aproximar de vários cultos religiosos que usam a autopunição e o sofrimento como forma de atenuar o direito humano à felicidade.
Parece que o homem moderno foi forjado à imagem de Prometeu, que conquistou o fogo, instruiu os homens, mas foi finalmente preso, atormentado e acorrentado. O ideal do homem, para Marcuse por exemplo, seria a figura do lírico Orfeu cantando a beleza da natureza e também do belo Narciso que, amando a si mesmo, também amaria toda a humanidade.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

O poeta cego e a atividade do pensamento

Cego é aquele que estando incapacitado de representar é livre o bastante para perceber mais atentamente o verdadeiro sentido daquilo que lhe rodeia.
Vivemos e agimos de acordo com um sentido que nos é colocado como finalidade. Desta forma, quem vive possui uma filosofia, uma concepção de mundo. Embora nem sempre manifesta, esta se aninha nas estruturas do inconsciente. De lá, ela comanda nossas vidas e norteia os nossos passos. A vida concreta de todo homem é pautada numa rede de significados, por vezes inconscientes, mas, presentes na mente a ponto de gerar as significações que atribuimos à nossa vida.
Uma coisa é querer impor um valor a um acontecimento, outra diferente, é dar voz às vozes presentes nos acontecimentos. Aí está a possibilidade do encontro de um ponto totalmente neutro onde seja possível se deixar conduzir pelo desinteresse e deste modo permitir que o sentido venha à tona. É assim que age o poeta cego, distante das pulsões oriundas dos sentidos, entrega-se por inteiro ao reino da significação e sem se dar conta, mergulhando na imparcialidade cria condições favoráveis para a significação emergir.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Estamos à mercê de acontecimentos que não estão em nossas mãos

A primazia da razão, tão almejada pelo homem como forma de libertação de um destino cego, trouxe também a preocupação com o sentido que a mesma possa produzir. Em nome da verdade corremos o risco de elevar a racionalidade a um ponto extremo capaz de gerar um aprisionamento, pois o " pensamento petrifica a vida", e, não foi esse o destino sonhado pelo homem quando buscou desesperadamente sua emancipação.
A fenomenologia, surgida no século XIX, trouxe a preocupação e juntamente, fez uma crítica ao primado da razão como forma de delinear o mundo e consequentemente nós mesmos. Mais tarde, outros pensadores, nem todos representantes desta corrente, também mostraram preocupação com esta mesma temática.
É importante não esquecer que a consciência que o homem tem do mundo é mais ampla que o mero conhecimento intelectual, pois, é ela, a consciência, a doadora de sentido para o mundo e que o olhar deste homem sobre o mundo é o modo pelo qual ele experimenta o mundo.
Portanto, a fenomenologia nada mais é do que a "filosofia da vivência", afinal, estamos condenados à liberdade.

sábado, 17 de abril de 2010

Múltiplos são os caminhos...

"À violência é sempre dado destruir o poder; do cano de uma arma desponta o domínio mais eficaz, que resulta na mais perfeita e imediata obediência. O que jamais poderá florescer da violência é o poder." (Hannah Arendt)
O homem violento, aquele que acredita em sua força, este não tem poder. O poder só pode ser encontrado onde não há violência. Uma coisa é obediência e medo outra é o real sentido daquilo que transforma sem agredir. Esta é uma das razões pelas quais a democracia apresenta-se como algo frágil pois, está implícito em sua natureza este caráter de incompletude na medida em que dá ao outro a compreensão de que não há uma imposição antecipada. Ao contrário, o que existe é o direito da autoprodução dentro do percurso.
Os riscos e as múltiplas possibilidades de escolhas fazem parte deste contexto de tolerância e respeito. Embora haja o risco, este sinaliza para a ausência de passividade e também para o recuo que as atitudes absolutas podem despertar com a falsa sedução de uma ordem preexistente.
Faz parte do exercício da maturidade entender que a tolerância pode ser um caminho para uma convivência mais pacífica e que tal atitude não significa passividade. Portanto, nem sempre é necessário que o mais forte seguido, pois múltiplos são os caminhos... .

terça-feira, 9 de março de 2010

De onde venho o mais nobre assunto para o homem é o homem

O sonho é um ponto de vista, é um lugar de onde se vê. Talvez por esta razão, não há nada que diferencie tanto a sociedade ocidental contemporânea das sociedades mais antigas, quando se pensa a respeito de vários conceitos.
No que diz respeito a arte, o artista só pode exprimir em sua obra a experiência daquilo que sua época e suas condições sociais têm para oferecer. No decorrer da História as obras de arte sempre tiveram a função de contar acontecimentos importantes, não apenas como mera manifestação artística, mas, sobretudo, como registro de um tempo. Por mais que pareça sonho e imaginação, arte é, acima de qualquer questionamento sobre consciente e subconsciente, o registro de um tempo.
Embora surja através da imaginação, sensibilidade e percepção, a arte e toda forma de manifestação humana, sempre será uma forma de interpretar o mundo e consequentemente o próprio homem.
A arte nem sempre foi considerada um objeto, um mercado como forma de especulação capitalista. Tanto é que o conceito de belo é meramente histórico, como prova disto, bastam as várias correntes estéticas surgidas no decorrer dos tempos.
Em resumo, toda e qualquer manifestação do homem nada mais é do que uma construção de si mesmo. É a coragem humana de usar seu próprio entendimento.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Transgressão Como Gesto Libertário

Na ordem da natureza o Homem apresenta-se como parte insignificante da mesma. Porém, a vida social e seus sistemas simbólicos, exige deste Homem, uma rede de interdições, que soam como modo de demarcar a ruptura entre o Homem e o animal. Talvez por esta razão, ele se depare com a função de produzir transgressões e assim assinalar para a possibilidade de criar fissuras. Não que tal ato signifique um regresso à natureza selvagem, ao contrário, parece ser mais uma expressão de si mesmo que se manifesta na tentativa de não permitir sua reificação.
Este Homem que não se deixa reificar, é o mesmo que combate o universo modelar buscando brechas na muralha da moral, tentando assim, encontrar a face da tolerância e do equilíbrio. Deste modo, combate o temor e revigora o ânimo da natureza humana.
Quem sabe um dia a sociedade encontre a dosagem exata e eficaz da moral, capaz de tornar este Homem livre sem que para tanto, ele precise buscar a clandestinidade além muralhas... .

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Em tudo há uma via contraditória

Sem pretender reduzir estes dois conceitos, mas apenas tentando compreendê-los a partir da contradição que apresentam, vamos falar a respeito do Materialismo e do Idealismo.

A teoria marxista compõe-se de uma teoria científica, que é o materialismo histórico, e de uma filosofia, que é o materialismo dialético.

Na visão materialista, o mundo material é anterior ao espírito, visto que, este deriva do primeiro. Para o idealismo, a visão é totalmente oposta, já que considera o mundo material como pura encarnação da idéia absoluta, da consciência.

Para os materialistas, a matéria é um dado primário visto que é a fonte da própria consciência. Já a consciência passa a ser um dado meramente secundário na medida em que é fruto e reflexo da matéria.

O materialismo marxista, que é dialético, distingue-se pois do materialismo dito vulgar ou mecanicista. A questão aqui não é simplesmente simplificar a ação da matéria sobre o espírito e deste modo abolir em definitivo a liberdade humana. Pois, como em tudo que envolve uma análise, o materialismo dialético, parte da compreensão de que os fenômenos materiais são processos, o que implica na existência de uma realidade dinâmica. Dito isto, é possível compreender o mundo e as coisas numa relação de dependência recíproca e não-linear.

A visão de uma realidade contraditória não cabe apenas ao pensamento marxista, mas também no próprio existir humano, na medida em que nos deparamos com situações onde as nossas idéias parecem não caber na realidade e na compreensão de quem nos rodeia.

O que se pode concluir é que o mundo é, dialeticamente falando, uma realidade de complexos, ou seja, por mais que desejemos, não há linearidade, pelo menos para aqueles que pretendem ir mais fundo na sua existência.

domingo, 17 de janeiro de 2010

A Eternidade Nos Escapa

" Ó humano, presta atenção... . Ai de mim! Para onde foi o tempo? Não afundei em poços profundos? O mundo está dormindo." Esta fala de Zaratustra (Nietzsche) suscita o sentimento de finitude do homem diante do mundo. Este homem, que é um ser de desejo, tem diante de si a certeza inexorável do finito.
A imagem mítica do deus Cronos (Tempo), devorando os próprios filhos, já expressa o conceito da não eternidade.
O próprio nascimento é a primeira morte, se entendida aqui como primeira separação. É o novo e desconhecido ambiente que substitui a cálida sobrevivência uterina. Daí em diante, a vida passa a ser uma eterna luta para se suportar as angústias humanas diante do dilaceramento da vida. Não é por acaso que apenas os santos, os heróis e os revolucionários, são capazes de suportar o enfrentamento da morte, tanto no sentido literal como no simbólico.
O tempo e sua transitoriedade são fatos que não se pode negar. Embora haja no homem um desejo de juventude, tema este que a ciência moderna tenta pensar como possível prorrogação e também, em paralelo, em extensão do tempo de vida, a eternidade insiste em nos escapar. Como já dizia Nietzsche: " O que se tornou perfeito, inteiramente maduro, quer morrer ".

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Quando a ética torna-se uma questão de ótica

A palavra virtude deriva do latim virtus e significa a qualidade ou ação digna do homem que usa sua liberdade com responsabilidade moral. O termo responsabilidade também se origina no latim respondere e quer dizer estar em condições de responder pelos atos praticados e deste modo, justificar suas ações.
O que dizer das falas "ocultas" que tornadas públicas por uma falha nos mecanismos técnicos, vem corroer nossos ouvidos com a revelação não planejada de quem deveria transmitir notícias e passar credibilidade. É a verdade por trás da bancada que não convence apesar do esforço de admiti-las vindo a público de maneira forçosamente vergonhosa, reconhecer que falou bobagens.
Parece que a ética só cabe no mundo da imagem que chega até o grande público e que a realidade para estes que têm o poder de mostrar a própria cara e falar para multidões, não está presente de fato nem nas sua competência dentro do mundo trabalho e quem dirá nas relações com seus subalternos.
O imoral é o intolerante que acredita ser o proprietário de um único critério moral. É bom lembrar a este velho senhor uma máxima do sábio e bom Marx que diz: "Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem...". Claro que isto tem muito mais valor no mundo dos que foram insultados e não no mundo confortável dos que abusam do espaço e do conforto que usufruem.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

A Dor e a Doença

Há doenças que são do corpo mas que também doem na alma, do mesmo modo há doenças que são da alma, mas que também parecem ter o poder de se alojarem no corpo. É como se houvesse uma integração entre estes dois aspectos do nosso ser, pois somos corpo e somos alma ou qualquer outra denominação que se dê à esta manifestação não material de nós mesmos.
O corpo é visto como instrumento através do qual nos expressamos, porém ele jamais poderá ser visto como mais uma coisa entre as coisas, visto que a relação por nós estabelecida com ele é repleta de valores. Apesar dos significados eróticos e estéticos virem através dele, ele não é mera anatomia.
A dor e a doença são manifestações da nossa corporeidade, elas podem ser vistas como metáforas de nós mesmos. Dizem que o peso da tuberculose no século XIX, é proporcional ao peso de outras doenças no século XX e XXI, com o câncer e a AIDS. Espera-se que o preconceito em torno destes males desapareça na mesma proporção que o medo e a angústia sejam suplantados pela esperança de cura, como já aconteceu com a tuberculose a hanseníase.
Precisamos afugentar as metáforas e substituí-las pela desdramatização, se somos seres conscientes de nós mesmos e do mundo, é preciso saber que sentido damos às doenças e o uso que fazemos das mesmas. Não podemos esquecer que não há como gerar significado para quem se encontra dentro do turbilhão do medo, da angústia e da dor. Então, o que resta é buscar o abrandamento do inevitável, e isto, cada homem encontra do seu modo, considerando suas convicções e crenças ou até a ausência das mesmas.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Que é que eu penso do amor?

Em suma não penso nada, diria R. Barthes,... estando do lado de dentro, eu o vejo em existência, não em essência. Dentro do discurso amoroso, embora haja permissão para a reflexão, esta foge do pensamento lógico, deixando assim de ser reflexividade, pois é impossivel falar em linguagem amorosa e ao mesmo tempo pretender pensá-la racionalmente.
As lendas gregas, já traziam na figura de Eros, filho de Afrodite e Ares, o deus do Amor como força de natureza espiritual que preside a partir de seu nascimento, a coesão e a ordem do universo. Curiosamente, este mesmo Eros encarregado de flechar os corações para torná-los apaixonados, se apaixona por Psique (Alma). Afrodite, a sogra invejosa da beleza de Psique, afasta-a do filho e a submete às mais difíceis provas e sofrimentos, dando-lhe como companheiras a Inquietude e a Tristeza, até que Zeus, atendendo aos apelos de Eros, liberta-a para que o casal possa enfim se unir novamente.
O que os mitos gregos podem nos revelar sobre o amor é que ele permite ao homem sair de si para assim tornar possível o encontro com o outro, somente através desta intersubjetividade se realiza o encontro. É isso que caracteriza fundamentalmente o homem, pois como força desejante, encontra a energia que o impulsiona a agir e procurar o prazer e a alegria, alcançando deste modo o objeto de seus desejos.
O amor também tem seus paradoxos, pois a meta alcançada não significa algo estático, ao contrário, é o começo do caminho de construção e reconstrução. Mesmo sendo vínculo, há um alto risco das pessoas serem aprisionadas em seu envolvimento, podendo deste modo chegar à dissolução do tão sonhado encontro. Citando um provérbio chinês:" O lugar mais sombrio, é sempre debaixo da lâmpada."

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Sensibilidade e Entendimento

Ao afirmar na Crítica da Razão Pura que: " Há dois troncos do conhecimento humano que partem talvez de uma raiz comum mas desconhecida de nós, que são a sensibilidade e o entendimento; pela primeira, os objetos nos são dados, pela segunda, são pensados ", Kant quer dizer que a sensibilidade, mesmo capaz de receber impressões, não basta para que haja conhecimento pois é preciso que o espírito pense o que é dado, e isso, é feito através dos conceitos.
É importante também entendermos a impossibilidade de captarmos os corpos a não ser inseridos em relação de distância, proximidade, grandeza, em suma, numa rede de relações espaciais. Para uma melhor compreensão devemos pensar a respeito da relação espaço e tempo. O espaço nós dá a possibilidade de abstrairmos todas as coisas que ele contem, porém, não o próprio espaço. O tempo também não é uma realidade em si, independente de nós. Nele estão enquadradas todas as coisas e estas, podem desaparecer, menos o próprio tempo.
Aplicando estes conceitos na experiência de viver, é preciso entendermos a dinâmica que há por trás de cada juízo elaborado sobre o mesmo tema e por vezes tão distintos em seu conteúdo. Não se aprende a experiência para depois submetê-la à síntese, pois o próprio ato de apreender já pressupõe que a experiência tenha ocorrido.
Sejamos pois tolerantes com os que pensam diferente de nós visto que a verdadeira experiência de cada um frente ao mundo, refletindo aqui sobre a questão do espaço, do tempo e das coisas neles inseridas, repercutem diretamente na síntese que cada indivíduo faz a respeito dos acontecimentos. Porém, ser tolerante não nos tira o direito de nos indignarmos diante dos juízos cegos e por vezes incoerentemente irracionais e com os quais nos deparamos com frequência.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

A Liberdade Como Futuro Aberto

A idéia de liberdade é comparada ao vôo livre de um pássaro, no entanto, esquecemos de refletir se há de fato total liberdade no ato de voar. Para Kant, a imagem de uma pomba ágil, indignada contra a resistência do ar que a impede de voar mais rápido, tem na resistência um suporte para o vôo visto que seria impossível voar no vácuo. Do mesmo modo somos nós, quando buscamos desesperadamente o direito à liberdade, nos deparamos com as resistências que o mundo real nos apresenta.
É impossível fugirmos aos determinismos naturais por exemplo. Há mecanismos que gostando ou não, estamos sujeitos, desta forma, já podemos constatar a existência de elos que nos incluem numa cadeia causal universal. O reconhecimento destes dados não deve servir de justificativa para a passividade diante do mundo e da trajetória de nossa existência. Ao buscarmos atingir as nossas metas, imprimimos autenticidade às nossas vidas. O homem que ao contrário não busca resistir às tensões mundanas, torna-se inautêntico, pois deixa de correr atrás do que acredita e deseja, passando a ser um mero seguidor de normas previamente criadas.
O homem verdadeiramente autêntico é aquele que mesmo reconhecendo os obstáculos que a vida apresenta, lança-se em direção ao futuro, projeta-se no tempo. Ou acreditamos na ilusão que somos livres para mudar a direção conforme nossos anseios ou nos resignamos e passamos a acreditar que nada podemos fazer. Nesta última opção, não há projeto de futuro, ao contrário o que prevalece é o determinismo e este não pode se sobrepor ao desejo humano de ultrapassagem, pois lá na frente há um futuro e este é um futuro aberto.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Eu Senti Antes de Pensar

A palavra se encontra no limiar do universo humano, pois caracteriza o homem e ao mesmo tempo o distingue do animal. Se a palavra se encontra enfraquecida na sua possibilidade de expressão, é o próprio homem que se desumaniza. Este homem é o ser animal que pensa, fala e age. A ação é o ato humano sobre o mundo capaz de transformar não apenas sua existência, mas também, tudo que a envolve.
O homem se autoproduz, estabelece relações mutáveis, altera sua forma de perceber, de pensar e de sentir. O mundo do animal é um mundo sem conceito; se chamado, responde ao nome que lhe foi dado e ao qual se habituou, nem por isso ele tem um "eu".
Em contrapartida, o eu humano é carregado de significados, pois permite o distanciamento do mundo e ao mesmo tempo possibilita o retorno. É dentro do universo social concreto que o homem se perde, na sua condição de ser social, mas, como pessoa, tem na individualidade a chance de encontrar-se consigo mesmo. Essa dialética do estranhamento é fundamental para desencadear novas forças criativas.
Por vezes, nosso olhar já embaçado pelo costume, necessita do distanciamento e este, possibilita no retorno, lançar um novo olhar carregado de novas perspectivas. Talvez este seja o remédio para se combater as convicções inabaláveis e portanto paralisantes, feito isto, podemos partir para mais um recomeço.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

O Sono da Razão Produz Monstros

Ao entrar em contato com o mundo, o homem o deseja ou o teme, só depois o interpreta. É próprio do desejo humano a busca pela dominação que serve para afugentar a insegurança e os temores diante do desconhecido e da morte. Os primeiros modelos de construção do real foram de natureza sobrenatural, ou seja, os mitos serviram não apenas de modelos de compreensão, pois trouxeram junto os deuses que tinham a função de apaziguar a afliçao humana de então.
Há no homem uma necessidade de compreensão, mesmo diante do caos, que não significa vazio, mas sim, a existência da desordem, mesmo aí, persiste a tentativa humana de por fim a este estado. Por ordem no caos significa dar a este homem a possibilidade de agir e de transformar.
Pela ciência acreditou-se na possibilidade definitiva de espantar o medo causado pela ignorância e superstição. No entanto, as sombras persistem, primeiramente observadas pelos pensadores da Escola de Frankfurt, e mais precisamente hoje, com base nas experiências concretas por nós vividas, estas sombras nos dão o temor da completa escuridão. Pedimos somente um pouco de ordem para nos proteger do caos, pois nada é mais doloroso do que constatarmos a nossa incapacidade de convivência com aquilo que não dominamos.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Belo é dizer duas vezes o que é necessário

A palavra distingue os homens dos animais. Não se sabe de onde é um homem antes que ele tenha falado, já dizia Rousseau. A linguagem é algo inseparável do humano, pois está presente em todos os seus atos.
Na busca da expressão e da comunicação, utilizando-se de gestos e vozes, apareceu a linguagem. Como expressão do pensamento, ela não é um simples acompanhamento do mesmo, mas sim, um fio profundamente tecido na trama do próprio pensamento.
Platão considerava a linguagem um remédio para o conhecimento, pois nos permite descobrir nossa ignorância e a partir daí, nos leva a aprender com os outros. Porém, ela também pode ser um veneno quando, pela sedução das palavras, nos faz acreditar no fascínio que as mesmas nos provocam. Há por trás delas um poder encantatório.
Sejamos pois atentos não apenas ao que ouvimos, mas, sobretudo, ao que pronunciamos, pois é através da linguagem que estabelecemos nossas relações com os outros e com o mundo. Somos ouvintes, mas também somos criadores daquilo que os outros ouvem. Portanto, belo é dizer duas vezes o necessário, o resto devemos guardar em forma de pensamento e deixar que se disperse.