segunda-feira, 7 de junho de 2010

O que podemos tirar das lições de Prometeu, Orfeu e Narciso

O homem age impulsionado por necessidades de sobrevivência, para satisfazer apetites e desejos, pela necessidade de crescer ou até pelo anseio de sobrepujar-se aos outros. Para Hegel, o homem é um desejo. Para Marx, é uma necessidade, ou melhor, é um sujeito portador de necessidades.
Onde estaria então a origem da infelicidade do homem moderno? O acúmulo de erros através dos tempos nos mostra as contradições de um prazer que em si mesmo é pecaminoso; isto não no sentido religioso, mas sobretudo no que diz respeito ao remorso que este é capaz de gerar na personalidade humana. É óbvio que neste tema podemos sim nos aproximar de vários cultos religiosos que usam a autopunição e o sofrimento como forma de atenuar o direito humano à felicidade.
Parece que o homem moderno foi forjado à imagem de Prometeu, que conquistou o fogo, instruiu os homens, mas foi finalmente preso, atormentado e acorrentado. O ideal do homem, para Marcuse por exemplo, seria a figura do lírico Orfeu cantando a beleza da natureza e também do belo Narciso que, amando a si mesmo, também amaria toda a humanidade.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

O poeta cego e a atividade do pensamento

Cego é aquele que estando incapacitado de representar é livre o bastante para perceber mais atentamente o verdadeiro sentido daquilo que lhe rodeia.
Vivemos e agimos de acordo com um sentido que nos é colocado como finalidade. Desta forma, quem vive possui uma filosofia, uma concepção de mundo. Embora nem sempre manifesta, esta se aninha nas estruturas do inconsciente. De lá, ela comanda nossas vidas e norteia os nossos passos. A vida concreta de todo homem é pautada numa rede de significados, por vezes inconscientes, mas, presentes na mente a ponto de gerar as significações que atribuimos à nossa vida.
Uma coisa é querer impor um valor a um acontecimento, outra diferente, é dar voz às vozes presentes nos acontecimentos. Aí está a possibilidade do encontro de um ponto totalmente neutro onde seja possível se deixar conduzir pelo desinteresse e deste modo permitir que o sentido venha à tona. É assim que age o poeta cego, distante das pulsões oriundas dos sentidos, entrega-se por inteiro ao reino da significação e sem se dar conta, mergulhando na imparcialidade cria condições favoráveis para a significação emergir.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Estamos à mercê de acontecimentos que não estão em nossas mãos

A primazia da razão, tão almejada pelo homem como forma de libertação de um destino cego, trouxe também a preocupação com o sentido que a mesma possa produzir. Em nome da verdade corremos o risco de elevar a racionalidade a um ponto extremo capaz de gerar um aprisionamento, pois o " pensamento petrifica a vida", e, não foi esse o destino sonhado pelo homem quando buscou desesperadamente sua emancipação.
A fenomenologia, surgida no século XIX, trouxe a preocupação e juntamente, fez uma crítica ao primado da razão como forma de delinear o mundo e consequentemente nós mesmos. Mais tarde, outros pensadores, nem todos representantes desta corrente, também mostraram preocupação com esta mesma temática.
É importante não esquecer que a consciência que o homem tem do mundo é mais ampla que o mero conhecimento intelectual, pois, é ela, a consciência, a doadora de sentido para o mundo e que o olhar deste homem sobre o mundo é o modo pelo qual ele experimenta o mundo.
Portanto, a fenomenologia nada mais é do que a "filosofia da vivência", afinal, estamos condenados à liberdade.

sábado, 17 de abril de 2010

Múltiplos são os caminhos...

"À violência é sempre dado destruir o poder; do cano de uma arma desponta o domínio mais eficaz, que resulta na mais perfeita e imediata obediência. O que jamais poderá florescer da violência é o poder." (Hannah Arendt)
O homem violento, aquele que acredita em sua força, este não tem poder. O poder só pode ser encontrado onde não há violência. Uma coisa é obediência e medo outra é o real sentido daquilo que transforma sem agredir. Esta é uma das razões pelas quais a democracia apresenta-se como algo frágil pois, está implícito em sua natureza este caráter de incompletude na medida em que dá ao outro a compreensão de que não há uma imposição antecipada. Ao contrário, o que existe é o direito da autoprodução dentro do percurso.
Os riscos e as múltiplas possibilidades de escolhas fazem parte deste contexto de tolerância e respeito. Embora haja o risco, este sinaliza para a ausência de passividade e também para o recuo que as atitudes absolutas podem despertar com a falsa sedução de uma ordem preexistente.
Faz parte do exercício da maturidade entender que a tolerância pode ser um caminho para uma convivência mais pacífica e que tal atitude não significa passividade. Portanto, nem sempre é necessário que o mais forte seguido, pois múltiplos são os caminhos... .

terça-feira, 9 de março de 2010

De onde venho o mais nobre assunto para o homem é o homem

O sonho é um ponto de vista, é um lugar de onde se vê. Talvez por esta razão, não há nada que diferencie tanto a sociedade ocidental contemporânea das sociedades mais antigas, quando se pensa a respeito de vários conceitos.
No que diz respeito a arte, o artista só pode exprimir em sua obra a experiência daquilo que sua época e suas condições sociais têm para oferecer. No decorrer da História as obras de arte sempre tiveram a função de contar acontecimentos importantes, não apenas como mera manifestação artística, mas, sobretudo, como registro de um tempo. Por mais que pareça sonho e imaginação, arte é, acima de qualquer questionamento sobre consciente e subconsciente, o registro de um tempo.
Embora surja através da imaginação, sensibilidade e percepção, a arte e toda forma de manifestação humana, sempre será uma forma de interpretar o mundo e consequentemente o próprio homem.
A arte nem sempre foi considerada um objeto, um mercado como forma de especulação capitalista. Tanto é que o conceito de belo é meramente histórico, como prova disto, bastam as várias correntes estéticas surgidas no decorrer dos tempos.
Em resumo, toda e qualquer manifestação do homem nada mais é do que uma construção de si mesmo. É a coragem humana de usar seu próprio entendimento.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Transgressão Como Gesto Libertário

Na ordem da natureza o Homem apresenta-se como parte insignificante da mesma. Porém, a vida social e seus sistemas simbólicos, exige deste Homem, uma rede de interdições, que soam como modo de demarcar a ruptura entre o Homem e o animal. Talvez por esta razão, ele se depare com a função de produzir transgressões e assim assinalar para a possibilidade de criar fissuras. Não que tal ato signifique um regresso à natureza selvagem, ao contrário, parece ser mais uma expressão de si mesmo que se manifesta na tentativa de não permitir sua reificação.
Este Homem que não se deixa reificar, é o mesmo que combate o universo modelar buscando brechas na muralha da moral, tentando assim, encontrar a face da tolerância e do equilíbrio. Deste modo, combate o temor e revigora o ânimo da natureza humana.
Quem sabe um dia a sociedade encontre a dosagem exata e eficaz da moral, capaz de tornar este Homem livre sem que para tanto, ele precise buscar a clandestinidade além muralhas... .

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Em tudo há uma via contraditória

Sem pretender reduzir estes dois conceitos, mas apenas tentando compreendê-los a partir da contradição que apresentam, vamos falar a respeito do Materialismo e do Idealismo.

A teoria marxista compõe-se de uma teoria científica, que é o materialismo histórico, e de uma filosofia, que é o materialismo dialético.

Na visão materialista, o mundo material é anterior ao espírito, visto que, este deriva do primeiro. Para o idealismo, a visão é totalmente oposta, já que considera o mundo material como pura encarnação da idéia absoluta, da consciência.

Para os materialistas, a matéria é um dado primário visto que é a fonte da própria consciência. Já a consciência passa a ser um dado meramente secundário na medida em que é fruto e reflexo da matéria.

O materialismo marxista, que é dialético, distingue-se pois do materialismo dito vulgar ou mecanicista. A questão aqui não é simplesmente simplificar a ação da matéria sobre o espírito e deste modo abolir em definitivo a liberdade humana. Pois, como em tudo que envolve uma análise, o materialismo dialético, parte da compreensão de que os fenômenos materiais são processos, o que implica na existência de uma realidade dinâmica. Dito isto, é possível compreender o mundo e as coisas numa relação de dependência recíproca e não-linear.

A visão de uma realidade contraditória não cabe apenas ao pensamento marxista, mas também no próprio existir humano, na medida em que nos deparamos com situações onde as nossas idéias parecem não caber na realidade e na compreensão de quem nos rodeia.

O que se pode concluir é que o mundo é, dialeticamente falando, uma realidade de complexos, ou seja, por mais que desejemos, não há linearidade, pelo menos para aqueles que pretendem ir mais fundo na sua existência.